Sabe quando tudo aquilo em que você acredita cai por terra? Sempre achei impossível se apaixonar por mais de uma pessoa ao mesmo tempo. Sempre achei que eu seria incapaz de desejar alguém comprometido. Nunca trai ninguém, mas, de uma hora para outra, lá estava eu, totalmente desacreditada. Tentando manter a consciência, apelando para a razão. Comecei a ver meus princípios, um a um serem derrubados. E eu mau sabia que era só o início.
Estava longe de entender o porque de tudo isso, nada fazia muito sentido... Eu estava só, abandonada, a 450km de uma possível reconciliação. Ele se dizia feliz, bem com sua cara-metade-pseudo-perfeita. Por que me ligar? Por que tinha que se confessar?
- Você estava linda. Fiquei te olhando de longe... – Dizia ele, cheio de malícia na voz. Não satisfeito descreveu, com detalhes, minha roupa, cuidadosamente escolhida para este fim. Meus gestos, minhas palavras, ele reparou em realmente tudo. Nesse clima, confessei também: adorei tudo naquela festa, caberia perfeitamente ali, no papel de namorada. Os amigos, a família... descobri que temos muito mais em comum do que pensava. Foi mais um motivo para me arrepender do passado. Por que deixei ele ir? Essa pergunta ecoava na minha cabeça.
Depois disso, tentando se livrar das palavras já tecidas, ele tentou, em vão, me convencer de que não daríamos certo juntos. Pura cara-de-pau, depois de ficar 5 longos anos longe de mim, me rever apenas uma vez e se apaixonar de novo e, o pior, com reciprocidade, ele vem com essa de não dar certo. Somos diferentes sim, tivemos vidas diferentes, vimos coisas diferentes, mas e daí?. Das igualdades q nos aproximam as diferenças q nos afastam, como saber qual vencera? Quem é mais forte? Já disse isso antes, mas mesmo assim ele insiste. Mais uma tentativa frustrada.
Em meio a tudo isso, minha culpa só aumentava e eu só pensava em fugir. Pedia a ele uma solução, mas ele não queria ouvir, nunca queria ouvir.
- Não quero me afastar de você. - Ele repetia, insistentemente.
Nossas conversas agora alternavam momentos de lucidez, culpa e paixão. A esta altura não dava mais para disfarçar. A coisa tomou forma, virou paixão mesmo. Agora trocávamos carícias auditivas, fazendo o que de melhor sabemos, usar as palavras. Começamos a tecer nossa teia de palavras, proibidas para dois amigos, perfeita para dois amantes.
Ainda tentava fugir, quando ele sacou um argumento:
- Queria muito que você lesse meus textos. Aproveito e levo a lista com as 50 coisas que gosto em você.
Por que eu não disse não? Eu disse, e mais de uma vez. Mas todos os meus nãos tinham cara de sim. Eu já não tinha mais tanta força, queria muito vê-lo de novo. Combinamos numa sexta, isso era uma segunda... Como demora a passar uma semana... Para ajudar, emails e mais telefonemas. A vontade de quebrar as regras era tanta que passávamos horas planejando a tarde de sexta. Ele tinha as idéias mais absurdas:
- Vou levar meu violão para você cantar para mim. Ele pode servir como escudo entre nós dois, no caso de alguém perder o controle.
- Tá legal, eu coloco um moletom e a camisa do Iron Maiden que você detesta.
Não foi um dia nada comum, parecia ter 40 horas que nunca passavam. Esperava ansiosa, achando que ele não viria. Um telefonema de desistência, mais 5 anos de silêncio, algo de lúcido no mar de confusões onde nos afundávamos cada vez mais. Ficaria imensamente triste, mas entenderia, já que a culpa crescia na mesma proporção do desejo.
O interfone finalmente tocou. Acho que ele não pensou assim, melhor, ele não pensou.
terça-feira, julho 24, 2001
quarta-feira, julho 18, 2001
Por que será que os ditos populares são tão cruelmente reais? Não sei a resposta, mas sei que é por isso que eu os odeio. Odeio ser escravizado, decifrado, conhecido, interpretado. Infelizmente, não são apenas aquelas malditas frases de pára-choques de caminhões que fazem isto com a gente. Pessoas também são assim...
Mas não é isto o que tenho para falar; voltemos aos ditados da época da vovó. "Pessoas certas, momentos errados". Esta foi a frase que regeu as minhas semanas seguintes - conforme vocês poderão perceber - sem dar-me um mínimo descanso.
Se eu liguei pra ela? Claro! Tinha uma vontade cada vez maior de falar com ela a todo instante. E ela foi muito mais incisiva do que eu poderia pensar que fosse capaz.
- Cara, eu iria adorar ser sua namorada! - Não sei se houve terremotos naquele dia. Não me importava, naquele instante, que pessoas pudessem precisar andar cinco quilômetros atrás de comida e água; não senti mais raiva de nada que mais pudesse incomodar ao meu moralismo exorbitante. O que ela me fez sentir com aquela frase eu nunca serei capaz de entender e, muito menos, de explicar. Foi uma daquelas coisas que as pessoas só escutam uma vez na vida. Eu nunca havia escutado nada tão corajosamente espontâneo como aquela frase. Aquela frase!!! Se ela me dissesse que faria tudo por mim; se a mim fizesse juras de amor - eterno, ou não - se aos meus pés se atirasse e enchesse de flores o chão onde eu pisasse; se confessasse estar loucamente apaixonada por mim, não teriam suas palavras surtido o efeito bombástico daquela frase. Até hoje, posso escutar aquela voz macia, do outro lado da linha telefônica, dizendo simplesmente que adoraria ser minha namorada.
Daí por diante, as coisas começaram a ficar mais difíceis. Eu insistia, de maneira pueril, em tentar convencer minha querida amiga de que poderíamos ser apenas bons amigos. Era tão pouco convincente com ela quanto comigo mesmo. Os telefonemas tiveram mais uma mudança de fase. Passaram a não mais poder esconder uma paquera proibida, de maneira adolescente. As nossas diferenças apareciam para tentar fazer com que não levássemos aquilo adiante. Eu me agarrei a elas com unhas, dentes, braços e pernas.
- Nós não poderíamos dar certo juntos. - Dizia eu, o dono de uma verdade imbecil e inconsistente.
- Por que você diz isso? - Perguntava, perguntava e perguntava aquela mulher maravilhosa que poderia dizer milhares de impropérios sobre mim que, ainda assim, eu agradeceria aos céus por não ter sido privado de ouvir tão bela voz.
- Nós somos muito diferentes.
- Eu não acho.... - Ela nunca achava o que eu achava. Tentei usar este argumento em prol da minha malfadada teoria, mas não consegui convencer nem mesmo meu próprio travesseiro.
Continuamos conversando e querendo mais do que conversar. Eu arranjava motivos para uma visita casual, dizendo que gostaria de saber a opinião dela sobre as minhas histórias e coisas deste calibre. Cada vez mais estava certo de que não conseguiria suportar muito tempo sem vê-la de novo.
Esse tipo de masturbação verbal continuou até que aceitamos combinar um novo encontro. Seria numa sexta-feira à tarde, em sua casa. Fiquei sem saber o que pensar depois de desligar o telefone. Lembro como se fosse hoje, que quase me esqueci de levar as histórias, para que ela lesse; tão importantes que eram! Como dizem várias músicas, vários textos famosos, fiquei contando as horas, naquele dia. Como seria ter que olhar pra ela sem beijar sua boca? Seria possível?
Finalmente, a sexta-feira chegou. Finalmente, o horário marcado chegou. Eu tive diversos sintomas de um ataque de pânico antas de ter coragem de tocar o interfone da casa dela. Estava adolescente, louco, apaixonado. Minha consciência estava perdendo covardemente a luta para o que eu sentia por ela. Quando ela atendeu, pensei que estávamos ao telefone. Não podia mais recuar. Entrei.
Mas não é isto o que tenho para falar; voltemos aos ditados da época da vovó. "Pessoas certas, momentos errados". Esta foi a frase que regeu as minhas semanas seguintes - conforme vocês poderão perceber - sem dar-me um mínimo descanso.
Se eu liguei pra ela? Claro! Tinha uma vontade cada vez maior de falar com ela a todo instante. E ela foi muito mais incisiva do que eu poderia pensar que fosse capaz.
- Cara, eu iria adorar ser sua namorada! - Não sei se houve terremotos naquele dia. Não me importava, naquele instante, que pessoas pudessem precisar andar cinco quilômetros atrás de comida e água; não senti mais raiva de nada que mais pudesse incomodar ao meu moralismo exorbitante. O que ela me fez sentir com aquela frase eu nunca serei capaz de entender e, muito menos, de explicar. Foi uma daquelas coisas que as pessoas só escutam uma vez na vida. Eu nunca havia escutado nada tão corajosamente espontâneo como aquela frase. Aquela frase!!! Se ela me dissesse que faria tudo por mim; se a mim fizesse juras de amor - eterno, ou não - se aos meus pés se atirasse e enchesse de flores o chão onde eu pisasse; se confessasse estar loucamente apaixonada por mim, não teriam suas palavras surtido o efeito bombástico daquela frase. Até hoje, posso escutar aquela voz macia, do outro lado da linha telefônica, dizendo simplesmente que adoraria ser minha namorada.
Daí por diante, as coisas começaram a ficar mais difíceis. Eu insistia, de maneira pueril, em tentar convencer minha querida amiga de que poderíamos ser apenas bons amigos. Era tão pouco convincente com ela quanto comigo mesmo. Os telefonemas tiveram mais uma mudança de fase. Passaram a não mais poder esconder uma paquera proibida, de maneira adolescente. As nossas diferenças apareciam para tentar fazer com que não levássemos aquilo adiante. Eu me agarrei a elas com unhas, dentes, braços e pernas.
- Nós não poderíamos dar certo juntos. - Dizia eu, o dono de uma verdade imbecil e inconsistente.
- Por que você diz isso? - Perguntava, perguntava e perguntava aquela mulher maravilhosa que poderia dizer milhares de impropérios sobre mim que, ainda assim, eu agradeceria aos céus por não ter sido privado de ouvir tão bela voz.
- Nós somos muito diferentes.
- Eu não acho.... - Ela nunca achava o que eu achava. Tentei usar este argumento em prol da minha malfadada teoria, mas não consegui convencer nem mesmo meu próprio travesseiro.
Continuamos conversando e querendo mais do que conversar. Eu arranjava motivos para uma visita casual, dizendo que gostaria de saber a opinião dela sobre as minhas histórias e coisas deste calibre. Cada vez mais estava certo de que não conseguiria suportar muito tempo sem vê-la de novo.
Esse tipo de masturbação verbal continuou até que aceitamos combinar um novo encontro. Seria numa sexta-feira à tarde, em sua casa. Fiquei sem saber o que pensar depois de desligar o telefone. Lembro como se fosse hoje, que quase me esqueci de levar as histórias, para que ela lesse; tão importantes que eram! Como dizem várias músicas, vários textos famosos, fiquei contando as horas, naquele dia. Como seria ter que olhar pra ela sem beijar sua boca? Seria possível?
Finalmente, a sexta-feira chegou. Finalmente, o horário marcado chegou. Eu tive diversos sintomas de um ataque de pânico antas de ter coragem de tocar o interfone da casa dela. Estava adolescente, louco, apaixonado. Minha consciência estava perdendo covardemente a luta para o que eu sentia por ela. Quando ela atendeu, pensei que estávamos ao telefone. Não podia mais recuar. Entrei.
sexta-feira, julho 13, 2001
Nossas longas conversas, geralmente noturnas, eram sempre embaladas pelo som que vinha do meu rádio. As músicas, por várias vezes, pontuavam nossos papos.
- Você conhece esta música?
- Não.
- Precisa conhecer um pouco mais. Essa letra é linda e esse cara tem muito talento, mistura os ritmos...- Começava eu a discorrer sobre estilos e tendências musicais que eram solenemente ignoradas por ele.
- Nossa, eu adoro esta música. "Every time I think of you..."
- Também gosto muito, mas não conhecia esta versão.
- "Every time I see you falling, I get down on my knees and pray..." É do Frente!
Saí cantando quase toda a música, ele do outro lado da linha, ele, mudo. Sem saber criava nosso primeiro hino, "Bizarre Love Triangle", uma música antiga, originalmente gravada pelo New Order, numa época em que nossas vidas eram muito mais simples. Agora uma regravação, praticamente uma versão, com novo arranjo, nova voz. Uma banda americana, Frente!, com um vocal feminino e doce, arranjo lento e muito charmoso. Fala sobre um triângulo amoroso bizarro. Bizarro? Será? Coincidências... E como se não bastasse toda a fantasia que nossas últimas revelações provocaram:
- Sua voz me tocou - Disse ele, com um jeito de quem acaba de ser seriamente abatido. Pronto! Agora tudo ficou diferente de vez, e ainda tem o aniversário.
Festa, adoro festa. Neste dia uma festa me atormentava, ir ou não ir, parecia Hamlet indeciso entre seus dramas existenciais. Passei todo o dia ponderando, medindo, pensando... Se não fosse a tal festa nunca saberia mais nada além do que ouvia pelo telefone, principalmente algo sobre esses estranhos sentimentos que agora insistiam em interferir em nossa amizade, poderiam mesmo ser reais? Ir até lá poderia significar o fim de tudo, o que já significava um alívio. Poderia saber o que se passava com ele, ter uma espécie de revelação. Quem sabe quando ele me vir ao lado de sua namorada pseudo-perfeita não tem um lampejo de lucidez e descobre que tudo não passou de um delírio de uma madrugada de sábado? Essas são apenas algumas das dúvidas e possibilidades que me atormentaram durante as horas que antecederam a festa.
Se fosse, com que roupa eu iria?. Não podia ser nada muito chamativo, nem tão pouco um dos meus modelitos preferidos, estilo menino, ele detesta! Calça jens? Ele também não gosta. Que saco! Acho que não vou mais... Que diabos estou fazendo? Me vestindo para alguém comprometido? Estou mais louca que imagino. Minhas panturrilhas, ele sempre elogiou... Uma saia longuete com uma camisetinha está ótimo, informal, normal. Saí de casa bem depois do horário marcado, umas duas horas de atraso, no caminho aquela velha pergunta ecoando na minha cabeça: "O que eu estou fazendo?".
Consegui chegar. Nenhum conhecido, nem mesmo ele, não sabia onde parar, perguntei para o primeiro que vi: "Onde está o aniversariante?". Segui o caminho indicado e, no meio de tantos rostos estranhos, mau pude reconhecer meu velho amigo. Ele me achou. De tão nervosa, o abraço que era para ter o tempo de uma saudade, foi breve como um suspiro. Não consegui olhar nos olhos dele. Logo alguns amigos o puxaram e eu pude sar dali, respirar, segundos que duraram horas. Fui buscar abrigo em outro canto, me sentei para controlar a enorme vontade de sair correndo. Olhava para todas as meninas, tentando reconhecer aquela a quem eu deveria pedir perdão. Derrepente ele veio, estava tao bonito, sentou-se ao meu lado e, sem conseguir me olhar nos olhos, agradeceu minha presença. Estava visivelmente desconfortável e lindo. Lindo sim, fiquei paquerando ele de longe a noite toda, já havia pecado mesmo, tinha o direito de me divertir um pouco.
Ah, já ia me esquecendo, a namorada. Ela realmente existe e era como eu imaginava, uma figura frágil e muito legal. Só para aumentar minha culpa foi só sorrisos comigo, fiz amizade com ela e a irmã, rimos juntas toda a noite. Pensava comigo: "Nossa, como sou cínica!". Atrasei em 25 anos minha evolução espiritual. Na hora da solene apresentação, nós duas ficamos lado-a-lado, estiquei ao máximo este momento, queria que ele nos visse para saber que foi tudo um engano. Depois disso só pensava em ir embora.
Mas o clima do lugar era ótimo, os amigos, a família. Fui ficando sem sentir, fui adorando cada momento. Ele cantou, tocou guitarra... A namorada nunca estava por perto, o que facilitou muito minha estada por lá. Só no final, uma pose para o álbum de fotos da festa me tirou do eixo, ele a abraçou e eu sufoquei. Definitivamente, ele não é mais apenas um amigo. No fim estava eu, intimamente, sentada na rodinha das pessoas mais importantes da vida dele, mãe, irmão, namorada... Destoava totalmente na paisagem. Minha cara de pau não teve limites, deixei ele me levar em casa, no caminho da casa da namorada, nós 3 no mesmo carro. No meu ponto um abraço fraterno e um inocente pedido:
- Me liga.
Na verdade queria dizer: "Volta mais tarde". Estou encrencada.
- Você conhece esta música?
- Não.
- Precisa conhecer um pouco mais. Essa letra é linda e esse cara tem muito talento, mistura os ritmos...- Começava eu a discorrer sobre estilos e tendências musicais que eram solenemente ignoradas por ele.
- Nossa, eu adoro esta música. "Every time I think of you..."
- Também gosto muito, mas não conhecia esta versão.
- "Every time I see you falling, I get down on my knees and pray..." É do Frente!
Saí cantando quase toda a música, ele do outro lado da linha, ele, mudo. Sem saber criava nosso primeiro hino, "Bizarre Love Triangle", uma música antiga, originalmente gravada pelo New Order, numa época em que nossas vidas eram muito mais simples. Agora uma regravação, praticamente uma versão, com novo arranjo, nova voz. Uma banda americana, Frente!, com um vocal feminino e doce, arranjo lento e muito charmoso. Fala sobre um triângulo amoroso bizarro. Bizarro? Será? Coincidências... E como se não bastasse toda a fantasia que nossas últimas revelações provocaram:
- Sua voz me tocou - Disse ele, com um jeito de quem acaba de ser seriamente abatido. Pronto! Agora tudo ficou diferente de vez, e ainda tem o aniversário.
Festa, adoro festa. Neste dia uma festa me atormentava, ir ou não ir, parecia Hamlet indeciso entre seus dramas existenciais. Passei todo o dia ponderando, medindo, pensando... Se não fosse a tal festa nunca saberia mais nada além do que ouvia pelo telefone, principalmente algo sobre esses estranhos sentimentos que agora insistiam em interferir em nossa amizade, poderiam mesmo ser reais? Ir até lá poderia significar o fim de tudo, o que já significava um alívio. Poderia saber o que se passava com ele, ter uma espécie de revelação. Quem sabe quando ele me vir ao lado de sua namorada pseudo-perfeita não tem um lampejo de lucidez e descobre que tudo não passou de um delírio de uma madrugada de sábado? Essas são apenas algumas das dúvidas e possibilidades que me atormentaram durante as horas que antecederam a festa.
Se fosse, com que roupa eu iria?. Não podia ser nada muito chamativo, nem tão pouco um dos meus modelitos preferidos, estilo menino, ele detesta! Calça jens? Ele também não gosta. Que saco! Acho que não vou mais... Que diabos estou fazendo? Me vestindo para alguém comprometido? Estou mais louca que imagino. Minhas panturrilhas, ele sempre elogiou... Uma saia longuete com uma camisetinha está ótimo, informal, normal. Saí de casa bem depois do horário marcado, umas duas horas de atraso, no caminho aquela velha pergunta ecoando na minha cabeça: "O que eu estou fazendo?".
Consegui chegar. Nenhum conhecido, nem mesmo ele, não sabia onde parar, perguntei para o primeiro que vi: "Onde está o aniversariante?". Segui o caminho indicado e, no meio de tantos rostos estranhos, mau pude reconhecer meu velho amigo. Ele me achou. De tão nervosa, o abraço que era para ter o tempo de uma saudade, foi breve como um suspiro. Não consegui olhar nos olhos dele. Logo alguns amigos o puxaram e eu pude sar dali, respirar, segundos que duraram horas. Fui buscar abrigo em outro canto, me sentei para controlar a enorme vontade de sair correndo. Olhava para todas as meninas, tentando reconhecer aquela a quem eu deveria pedir perdão. Derrepente ele veio, estava tao bonito, sentou-se ao meu lado e, sem conseguir me olhar nos olhos, agradeceu minha presença. Estava visivelmente desconfortável e lindo. Lindo sim, fiquei paquerando ele de longe a noite toda, já havia pecado mesmo, tinha o direito de me divertir um pouco.
Ah, já ia me esquecendo, a namorada. Ela realmente existe e era como eu imaginava, uma figura frágil e muito legal. Só para aumentar minha culpa foi só sorrisos comigo, fiz amizade com ela e a irmã, rimos juntas toda a noite. Pensava comigo: "Nossa, como sou cínica!". Atrasei em 25 anos minha evolução espiritual. Na hora da solene apresentação, nós duas ficamos lado-a-lado, estiquei ao máximo este momento, queria que ele nos visse para saber que foi tudo um engano. Depois disso só pensava em ir embora.
Mas o clima do lugar era ótimo, os amigos, a família. Fui ficando sem sentir, fui adorando cada momento. Ele cantou, tocou guitarra... A namorada nunca estava por perto, o que facilitou muito minha estada por lá. Só no final, uma pose para o álbum de fotos da festa me tirou do eixo, ele a abraçou e eu sufoquei. Definitivamente, ele não é mais apenas um amigo. No fim estava eu, intimamente, sentada na rodinha das pessoas mais importantes da vida dele, mãe, irmão, namorada... Destoava totalmente na paisagem. Minha cara de pau não teve limites, deixei ele me levar em casa, no caminho da casa da namorada, nós 3 no mesmo carro. No meu ponto um abraço fraterno e um inocente pedido:
- Me liga.
Na verdade queria dizer: "Volta mais tarde". Estou encrencada.
quarta-feira, julho 11, 2001
Muitas vezes não pensamos, simplesmente porque não queremos; não interessa pensar naquela hora. Foi o que fiz. Não pelo convite, por si só; mas todas as palavras ditas em torno daquela situação, que culminou em um despretensioso - quem acredita? - convite para a minha festa de aniversário.
Ela estava ali, completamente entregue às minhas palavras; precisando de que algum limite fosse colocado para que aquilo tudo não lhe escapasse ao controle. Um amigo realmente empenhado em seu bem-estar jamais tentaria aguçar as suas sensações carnais. Mas fiz exatamente o contrário. Peguei a ponta do novelo e, sem refletir, comecei a enrolar-me nela.
- É tão simples chegar em minha casa! Você não vai ter a mínima dificuldade. Diz que vem, vai! - Dizia eu, o mais-novo-velho-amigo-carrasco-do-coração.
- Não vou te prometer nada. Não sei se vou conseguir... - A voz dela era tão minha que eu começava a querer ouvir ( como sempre ) mais do que deveria.
Com o fim desse telefonema, começaram as minhas reflexões sobre o assunto. Não seria tão difícil assim resistir àquela tentação. Eu sempre lutei contra os sentimentos não ditos; achava que depois de tudo colocado em pratos limpos, saberíamos lidar com aquilo. Afinal, não éramos dois adolescentes.
Bem; o fato é que o dia da festa chegara. Aos poucos, a certeza de que ela não se atreveria a aparecer tomou o lugar da insegurança que eu estava sentindo quanto aos meus possíveis olhares. Tudo aquilo poderia começar a desaparecer daquele dia em diante. Depois de algum tempo - não muito, por certo - eu ligaria pra ela cobrando a sua falta e voltaríamos a conversar normalmente, tratando nossas conversas anteriores como deliciosos delírios de uma noite de outono.
O que mais me dava força para acreditar nisso era a crítica que eu, em segredo, fazia ao meu relacionamento. Procurava alguma coisa que me fizesse interessar por outra mulher; que me fizesse pensar que poderia não ser aquilo o que eu realmente quereria para toda a minha vida. Nunca encontrava. Estava ficando cada vez mais seguro de que aquela história secreta não continuaria a evoluir.
Pois é. Tudo muito bonitinho pra quem está lendo. Só que ela apareceu!
Chegou com aquele olhar de gente miúda que se acha o máximo - mecanismo de defesa tantas vezes por ela utilizado -, aquele nariz empinado e aquele jeito de andar que eu tão bem conhecia. Estava entrando em um Campo de Batalha, sem dúvida. Eu só gostaria de não ser o inimigo escolhido para aquela noite. Estava vestida até discretamente para o que eu esperava. Usava uma saia jeans e uma camiseta - pouco discreta, como perceberia depois -, indumentária coroada por um charmoso casaquinho de menina bem-comportada. Ninguém imagina o que me passou pela cabeça quando percebi que ela havia tirado o casaco. ( Não! Não é este o rumo que a história vai tomar! ) Abraçou-me cinicamente, olhou-me cinicamente, e fez com que eu me comportasse cinicamente a partir daquele instante.
Demonstrei estar preocupado com alguma maneira de proporcionar algum divertimento à minha querida amiga. "Ela bem que poderia ter trazido alguém com ela!" - Pensava eu, enquanto trazia minha namorada pra que as duas se conhecessem. Um homem pode ser cruel quando quer magoar alguém. Mas, sem sombra de dúvidas, pode ser muito mais, quando não é isto o que deseja. Eu cheguei ao cúmulo de deixar as duas conversando por alguns minutos.
Nada de ruim aconteceu; ou nada de pior. As pessoas começaram a ir embora, e ela foi ficando, ficando. Começava a ficar tarde para uma menina andar sozinha pelas ruas, quando ela disse:
- Filho, já está ficando tarde e eu devo ir embora... - Era a chance de que eu precisava para despedir-me dela sem nenhum motivo para ficar preocupado depois. E o que eu disse...???
- Não se preocupe. Eu deixo você em casa quando for levar a minha namorada. - Era a chance de que ela precisava pra ficar indignada e ir embora de vez. E o que ela disse...???
- Tá bom.
Lá pelas tantas, quando ninguém conseguia mais jogar conversa fora, resolvemos que era hora de cada um seguir seu rumo.
Deixamos minha querida amiga em casa - Detalhe: ela adorou o meu carro -. Quando saiu de dentro dele e nos despedimos, já no lado de fora, discreta e humildemente - coisa difícil de acontecer - fez um pedido para que eu ligasse no dia seguinte. Como se eu já não fosse fazê-lo.
Assim terminou a festa, terminou a noite, mas a tormenta continuou
Ela estava ali, completamente entregue às minhas palavras; precisando de que algum limite fosse colocado para que aquilo tudo não lhe escapasse ao controle. Um amigo realmente empenhado em seu bem-estar jamais tentaria aguçar as suas sensações carnais. Mas fiz exatamente o contrário. Peguei a ponta do novelo e, sem refletir, comecei a enrolar-me nela.
- É tão simples chegar em minha casa! Você não vai ter a mínima dificuldade. Diz que vem, vai! - Dizia eu, o mais-novo-velho-amigo-carrasco-do-coração.
- Não vou te prometer nada. Não sei se vou conseguir... - A voz dela era tão minha que eu começava a querer ouvir ( como sempre ) mais do que deveria.
Com o fim desse telefonema, começaram as minhas reflexões sobre o assunto. Não seria tão difícil assim resistir àquela tentação. Eu sempre lutei contra os sentimentos não ditos; achava que depois de tudo colocado em pratos limpos, saberíamos lidar com aquilo. Afinal, não éramos dois adolescentes.
Bem; o fato é que o dia da festa chegara. Aos poucos, a certeza de que ela não se atreveria a aparecer tomou o lugar da insegurança que eu estava sentindo quanto aos meus possíveis olhares. Tudo aquilo poderia começar a desaparecer daquele dia em diante. Depois de algum tempo - não muito, por certo - eu ligaria pra ela cobrando a sua falta e voltaríamos a conversar normalmente, tratando nossas conversas anteriores como deliciosos delírios de uma noite de outono.
O que mais me dava força para acreditar nisso era a crítica que eu, em segredo, fazia ao meu relacionamento. Procurava alguma coisa que me fizesse interessar por outra mulher; que me fizesse pensar que poderia não ser aquilo o que eu realmente quereria para toda a minha vida. Nunca encontrava. Estava ficando cada vez mais seguro de que aquela história secreta não continuaria a evoluir.
Pois é. Tudo muito bonitinho pra quem está lendo. Só que ela apareceu!
Chegou com aquele olhar de gente miúda que se acha o máximo - mecanismo de defesa tantas vezes por ela utilizado -, aquele nariz empinado e aquele jeito de andar que eu tão bem conhecia. Estava entrando em um Campo de Batalha, sem dúvida. Eu só gostaria de não ser o inimigo escolhido para aquela noite. Estava vestida até discretamente para o que eu esperava. Usava uma saia jeans e uma camiseta - pouco discreta, como perceberia depois -, indumentária coroada por um charmoso casaquinho de menina bem-comportada. Ninguém imagina o que me passou pela cabeça quando percebi que ela havia tirado o casaco. ( Não! Não é este o rumo que a história vai tomar! ) Abraçou-me cinicamente, olhou-me cinicamente, e fez com que eu me comportasse cinicamente a partir daquele instante.
Demonstrei estar preocupado com alguma maneira de proporcionar algum divertimento à minha querida amiga. "Ela bem que poderia ter trazido alguém com ela!" - Pensava eu, enquanto trazia minha namorada pra que as duas se conhecessem. Um homem pode ser cruel quando quer magoar alguém. Mas, sem sombra de dúvidas, pode ser muito mais, quando não é isto o que deseja. Eu cheguei ao cúmulo de deixar as duas conversando por alguns minutos.
Nada de ruim aconteceu; ou nada de pior. As pessoas começaram a ir embora, e ela foi ficando, ficando. Começava a ficar tarde para uma menina andar sozinha pelas ruas, quando ela disse:
- Filho, já está ficando tarde e eu devo ir embora... - Era a chance de que eu precisava para despedir-me dela sem nenhum motivo para ficar preocupado depois. E o que eu disse...???
- Não se preocupe. Eu deixo você em casa quando for levar a minha namorada. - Era a chance de que ela precisava pra ficar indignada e ir embora de vez. E o que ela disse...???
- Tá bom.
Lá pelas tantas, quando ninguém conseguia mais jogar conversa fora, resolvemos que era hora de cada um seguir seu rumo.
Deixamos minha querida amiga em casa - Detalhe: ela adorou o meu carro -. Quando saiu de dentro dele e nos despedimos, já no lado de fora, discreta e humildemente - coisa difícil de acontecer - fez um pedido para que eu ligasse no dia seguinte. Como se eu já não fosse fazê-lo.
Assim terminou a festa, terminou a noite, mas a tormenta continuou
segunda-feira, julho 09, 2001
O que de tão misterioso havia naquela conversa para mudar o rumo dessa história? Onde morava o segredo que magicamente foi revelado naquela noite? Um segredo impronunciável, capaz de transformar uma amizade. Espero algum dia tropeçar nestas respostas.
Foi um telefonema combinado, diferente dos demais, deixava claro uma grande vontade de conversar mais e mais. Como em todas as outras vezes:
- Você está melhor?
- Tô indo - Meu namorado confuso ainda povoava meus pensamentos, e meu mais novo velho amigo se empenhava em lutar pelo meu bem estar, queria a todo custo me curar.
- Sua namorada esta bem?
- Tá - Continuava monossilábico quando o assunto era seu namoro pseudo-perfeito. Coisa que só fazia aguçar ainda mais minha curiosidade.
Havia um segredo confidenciado a mim:
- Recebo alguns telefonemas noturnos. A conversa tem sempre um tom erótico. - Uma enxurrada de perguntas brotaram em minha inquieta mente. Quem? Como? Porque?
- Não conheço pessoalmente, começou por acaso.
- Acaso?
- Um engano, gostou da minha voz e resolveu brincar comigo. Liga quase todos os dias. - Dizia ele com um irritante tom de desdém.
- Hoje vai rolar uma frustração, o telefone está ocupado.
- Mas o papo aqui está mais interessante. - Sempre galante.
Aquela história totalmente descabida mexeu com meu imaginário. De tanto perguntar ele revelou alguns detalhes e eu, brincando, comecei a imitar os libidinosos telefonemas, que exerciam em mim uma influência irresistível agora. Brincando? Minhas intenções começavam a me trair. A voz dele foi ficando diferente, a minha também mudava, mais baixinha, melosa, quase sussurrada.
Por pouco não amanhecemos ali, eu deitada em minha cama e ele, alguns quilômetros distante, escondido no quartinho dos fundos, para não acordar ninguém em sua casa. Foi tão louca essa presença. Sentia ele ali, deitado ao meu lado. Adormeci espremida no canto da cama, deixando espaço físico para alguém que só estava presente em minha imaginação.
Nos dias que vieram uma pequena fuga foi minha estratégia para digerir as estranhas sensações que agora vinham da voz do meu mais novo velho amigo. Alguém a quem eu deveria dedicar nada mais que um carinho inocente e alguns outros sentimentos muito mais nobres que mundanos. Comecei a sentir uma vontade quase irresistível de vê-lo, mas não queria ligar, falar. Havia uma grande probabilidade deu estar confundindo as coisas. A dor ainda fazia parte do meu dia-a-dia. Choramingava pelos cantos, sentia saudades do namorado confuso, tinha esperanças de receber um telefonema de arrependimento, ainda queria ele de volta. Estava fragilizada, é fácil confundir as coisas e estragar tudo de repente. O silêncio foi uma boa opção. Será mesmo que tudo que cala fala mais alto ao coração?
Mas ele não tardou a me encontrar, quebrar meu silêncio e me trazer uma nova tormenta.
- Você vem na minha festa de aniversário? - Perguntava ele em tom incisivo, mais afirmando que questionando.
Subitamente entrei em pânico. Queria simplesmente dizer que não, que tinha algum outro compromisso qualquer mais importante que estar ao lado de um amigo aniversariando. Fiquei rodeando, tentando...
- Vai ser ótimo. Vai ter.... - Saiu relatando empolgado - Queria muito que viesse.
Partiu meu coração.
- Você não tem medo de nos apaixonarmos de novo?
Um silêncio constrangedor se abateu sobre a linha telefônica. Tudo que cala realmente fala mais alto ao coração.
Foi um telefonema combinado, diferente dos demais, deixava claro uma grande vontade de conversar mais e mais. Como em todas as outras vezes:
- Você está melhor?
- Tô indo - Meu namorado confuso ainda povoava meus pensamentos, e meu mais novo velho amigo se empenhava em lutar pelo meu bem estar, queria a todo custo me curar.
- Sua namorada esta bem?
- Tá - Continuava monossilábico quando o assunto era seu namoro pseudo-perfeito. Coisa que só fazia aguçar ainda mais minha curiosidade.
Havia um segredo confidenciado a mim:
- Recebo alguns telefonemas noturnos. A conversa tem sempre um tom erótico. - Uma enxurrada de perguntas brotaram em minha inquieta mente. Quem? Como? Porque?
- Não conheço pessoalmente, começou por acaso.
- Acaso?
- Um engano, gostou da minha voz e resolveu brincar comigo. Liga quase todos os dias. - Dizia ele com um irritante tom de desdém.
- Hoje vai rolar uma frustração, o telefone está ocupado.
- Mas o papo aqui está mais interessante. - Sempre galante.
Aquela história totalmente descabida mexeu com meu imaginário. De tanto perguntar ele revelou alguns detalhes e eu, brincando, comecei a imitar os libidinosos telefonemas, que exerciam em mim uma influência irresistível agora. Brincando? Minhas intenções começavam a me trair. A voz dele foi ficando diferente, a minha também mudava, mais baixinha, melosa, quase sussurrada.
Por pouco não amanhecemos ali, eu deitada em minha cama e ele, alguns quilômetros distante, escondido no quartinho dos fundos, para não acordar ninguém em sua casa. Foi tão louca essa presença. Sentia ele ali, deitado ao meu lado. Adormeci espremida no canto da cama, deixando espaço físico para alguém que só estava presente em minha imaginação.
Nos dias que vieram uma pequena fuga foi minha estratégia para digerir as estranhas sensações que agora vinham da voz do meu mais novo velho amigo. Alguém a quem eu deveria dedicar nada mais que um carinho inocente e alguns outros sentimentos muito mais nobres que mundanos. Comecei a sentir uma vontade quase irresistível de vê-lo, mas não queria ligar, falar. Havia uma grande probabilidade deu estar confundindo as coisas. A dor ainda fazia parte do meu dia-a-dia. Choramingava pelos cantos, sentia saudades do namorado confuso, tinha esperanças de receber um telefonema de arrependimento, ainda queria ele de volta. Estava fragilizada, é fácil confundir as coisas e estragar tudo de repente. O silêncio foi uma boa opção. Será mesmo que tudo que cala fala mais alto ao coração?
Mas ele não tardou a me encontrar, quebrar meu silêncio e me trazer uma nova tormenta.
- Você vem na minha festa de aniversário? - Perguntava ele em tom incisivo, mais afirmando que questionando.
Subitamente entrei em pânico. Queria simplesmente dizer que não, que tinha algum outro compromisso qualquer mais importante que estar ao lado de um amigo aniversariando. Fiquei rodeando, tentando...
- Vai ser ótimo. Vai ter.... - Saiu relatando empolgado - Queria muito que viesse.
Partiu meu coração.
- Você não tem medo de nos apaixonarmos de novo?
Um silêncio constrangedor se abateu sobre a linha telefônica. Tudo que cala realmente fala mais alto ao coração.
terça-feira, julho 03, 2001
Eu não acredito em destino! Sempre que uso uma expressão nesse sentido é por pura brincadeira. Por isso vou dizer que o Destino quis que o namoro dela terminasse. E quis ainda que eu quisesse estar por perto, nessa hora. Como ela sofria! Como era ruim ouvir o que ela dizia ter ouvido dele. Que absurdo alguém como ela ter-se apaixonado por alguém como ele. Com isso, as nossas conversas começavam ganhar um tom mais íntimo. Algo confidencial. Era estranho o modo como eu evitava falar da minha namorada. Eu dizia pra mim que não gostaria de ouvir algo assim se estivesse no lugar de minha amiga.
- E a sua namorada perfeita, como vai? - Irritante, como sempre. Perguntando, como sempre.
- Ela não é perfeita! Ninguém é perfeito! - Respondia eu, na esperança de que acabassem as perguntas.
- Ah! É que eu acho bonitinho o modo como você fala dela...- Eu precisava interromper.
- Tá bom! e você, como vai?
- Tudo na mesma. - Sempre que eu perguntava, a resposta era aquela. Até que, um dia, disse que não perguntaria mais como ela estava. Detestava ouvir aquilo, sem poder estar perto dela para oferecer meu ombro.
De qualquer forma, ela parecia não estar se importunando com as minhas insistentes ligações. Na verdade, nós sempre conseguíamos sorrir juntos. Coisas de cinco anos anteriores que não se apagavam facilmente. Fui vendo que, modéstia à parte, eu conseguia proporcionar alguns bons momentos àquela princesa sem castelo. O Bobo-da-Corte fazia bem o seu papel. Mas era mais do que isso. Sentia já necessidade de ouvir-lhe a voz, as gargalhadas, que eu lutava para que não fenecessem. Sentia vontade de dizer tudo o que o Cara Confuso não tivera tido sensibilidade para dizer.
- Sou capaz de fazer uma lista com cinqüenta coisas de que gosto em você! - Seria mesmo?
- Ah! 'Cê tá brincando, cara! - Agora eu tinha certeza de que poderia fazer tal coisa.
- Eu só preciso de algum tempo.
E foi o que fiz. Em muito menos tempo do que achei que precisasse. Isso foi mais uma coisa que me assustou. Mas não tanto quanto um telefonema de um certo Sábado à noite. Por volta das 23 30, eu liguei para ela. Foi aí que caiu o pano.
Jamais vou conseguir lembrar as coisas que disse e ouvi. Mas jamais esquecerei o modo como nos falávamos, lá pelas quatro da manhã, e sem querer desligar. A voz dela parecia estar ali do meu lado, no travesseiro. Parecia ser o meu próprio travesseiro. Seu tom baixinho me embalava mil fantasias, até então não permitidas. Ficamos umas duas horas para conseguir desligar, depois de termos tomado a decisão. A Cena do Balcão em Romeu e Julieta parecia estar sendo naturalmente interpretada, ali. ' Boa noite! Mil vezes boa noite! A despedida é uma dor tão doce que eu diria boa noite até que chegasse o dia! '
O que fazer depois daquela noite? Ela me perguntara se eu não sentira medo de nos apaixonarmos de novo. Pegou-me de surpresa. Nem lembro o que respondi. Só sei que as coisas mudaram muito dali pra frente. Como seria a próxima vez em que nos falássemos? Quando seria? Seria...? Mas nada apagou ou diminuiu o prazer que senti em ouvir aquela voz de travesseiro até as tantas da manhã. Mas era um prazer que eu não estava livre pra sentir...e nem forte o bastante para sufocar. Mas não quero falar sobre isso, agora.
- E a sua namorada perfeita, como vai? - Irritante, como sempre. Perguntando, como sempre.
- Ela não é perfeita! Ninguém é perfeito! - Respondia eu, na esperança de que acabassem as perguntas.
- Ah! É que eu acho bonitinho o modo como você fala dela...- Eu precisava interromper.
- Tá bom! e você, como vai?
- Tudo na mesma. - Sempre que eu perguntava, a resposta era aquela. Até que, um dia, disse que não perguntaria mais como ela estava. Detestava ouvir aquilo, sem poder estar perto dela para oferecer meu ombro.
De qualquer forma, ela parecia não estar se importunando com as minhas insistentes ligações. Na verdade, nós sempre conseguíamos sorrir juntos. Coisas de cinco anos anteriores que não se apagavam facilmente. Fui vendo que, modéstia à parte, eu conseguia proporcionar alguns bons momentos àquela princesa sem castelo. O Bobo-da-Corte fazia bem o seu papel. Mas era mais do que isso. Sentia já necessidade de ouvir-lhe a voz, as gargalhadas, que eu lutava para que não fenecessem. Sentia vontade de dizer tudo o que o Cara Confuso não tivera tido sensibilidade para dizer.
- Sou capaz de fazer uma lista com cinqüenta coisas de que gosto em você! - Seria mesmo?
- Ah! 'Cê tá brincando, cara! - Agora eu tinha certeza de que poderia fazer tal coisa.
- Eu só preciso de algum tempo.
E foi o que fiz. Em muito menos tempo do que achei que precisasse. Isso foi mais uma coisa que me assustou. Mas não tanto quanto um telefonema de um certo Sábado à noite. Por volta das 23 30, eu liguei para ela. Foi aí que caiu o pano.
Jamais vou conseguir lembrar as coisas que disse e ouvi. Mas jamais esquecerei o modo como nos falávamos, lá pelas quatro da manhã, e sem querer desligar. A voz dela parecia estar ali do meu lado, no travesseiro. Parecia ser o meu próprio travesseiro. Seu tom baixinho me embalava mil fantasias, até então não permitidas. Ficamos umas duas horas para conseguir desligar, depois de termos tomado a decisão. A Cena do Balcão em Romeu e Julieta parecia estar sendo naturalmente interpretada, ali. ' Boa noite! Mil vezes boa noite! A despedida é uma dor tão doce que eu diria boa noite até que chegasse o dia! '
O que fazer depois daquela noite? Ela me perguntara se eu não sentira medo de nos apaixonarmos de novo. Pegou-me de surpresa. Nem lembro o que respondi. Só sei que as coisas mudaram muito dali pra frente. Como seria a próxima vez em que nos falássemos? Quando seria? Seria...? Mas nada apagou ou diminuiu o prazer que senti em ouvir aquela voz de travesseiro até as tantas da manhã. Mas era um prazer que eu não estava livre pra sentir...e nem forte o bastante para sufocar. Mas não quero falar sobre isso, agora.
Os telefonemas se tornaram mais constantes e demorados. A medida em que meu castelo de ilusões ruía, me apegava as nossas horas de conversas telefônicas. Meu namorado ficava cada vez mais confuso. Distante fisicamente de mim, não conseguia segura os sentimentos nobres, preferia se entregar aos delírios de um ciúme doentio. Eu, que via naquele menino uma oportunidade de realizar meus mais antigos sonhos, me deixava vencer pelos maus tratos. Brigas e acusações infundadas me machucavam ainda mais. Me deixava iludir pelos sentimentos que acreditava que ele nutria por mim, era tão bom depois de tanto tempo ser querida de novo que me deixei levar pela fantasia de ama-lo profundamente um dia e, com ele, construir uma família. Não era tão simples assim. Deleguei poderes demais ao namorado confuso, deixei-o me fazer de seu brinquedo. Acabei por acreditar que era mesmo a criatura horrível que o ciúmes o fazia enxergar.
Bem mais perto de mim, dentro do meu mundo, meu mais novo velho amigo me ajudava a pensar com seus longos papos. Sempre desligava o telefone muito mais lúcida do que o costume. Quando finalmente reconheci que mais uma vez perdi a guerra, joguei a toalha e acabei o namoro, ele estava lá, do outro lado da linha com alguma coisa boa para me dizer, com algo bonito para me mostrar. Me convencendo de que eu não precisava passar por aquilo, não daquele jeito. Eu era alguém especial, e devia ser mesmo, uma pessoa comum não teria amigos assim.
Já não me incomodava tanto o fato dele ter reaparecido assim, do nada, na minha vida. Era tão bom tê-lo por perto, tão importante ouvi-lo.
- Voltei para te ajudar nesse momento. - Ele parecia precisar de um motivo também.
Podia ter razão, minha recuperação foi recorde, em parte pela minha lucidez que agora não me abandona mais, em parte pela doce presença do mais novo velho amigo. Ele me fazia sentir importante, escrevia uma crônica sobre mim, sobre nos dois. Eu era o personagem mais interessante que conhecera, isso me deixava incondicionalmente feliz. Aos poucos me convencia de que eu realmente era alguém especial. Insistia em apontar qualidades em mim
- Sou capaz de listar 50 coisas que você tem de especial.
- Duvido!
Ele aceitou o desafio, eu continuei incrédula.
Nossos intermináveis papos prosseguiam. Música, poesia, psicologia, família, passado, futuro. Ele já não falava da namorada legal, eu já não queria perguntar. Numa noite de sábado, o papo fluía como sempre, mas tomou um rumo inesperado. Ainda não sei como aconteceu, mas começamos a falar de nós de um jeito diferente. Como se nós fossemos 2, um casal...
Bem mais perto de mim, dentro do meu mundo, meu mais novo velho amigo me ajudava a pensar com seus longos papos. Sempre desligava o telefone muito mais lúcida do que o costume. Quando finalmente reconheci que mais uma vez perdi a guerra, joguei a toalha e acabei o namoro, ele estava lá, do outro lado da linha com alguma coisa boa para me dizer, com algo bonito para me mostrar. Me convencendo de que eu não precisava passar por aquilo, não daquele jeito. Eu era alguém especial, e devia ser mesmo, uma pessoa comum não teria amigos assim.
Já não me incomodava tanto o fato dele ter reaparecido assim, do nada, na minha vida. Era tão bom tê-lo por perto, tão importante ouvi-lo.
- Voltei para te ajudar nesse momento. - Ele parecia precisar de um motivo também.
Podia ter razão, minha recuperação foi recorde, em parte pela minha lucidez que agora não me abandona mais, em parte pela doce presença do mais novo velho amigo. Ele me fazia sentir importante, escrevia uma crônica sobre mim, sobre nos dois. Eu era o personagem mais interessante que conhecera, isso me deixava incondicionalmente feliz. Aos poucos me convencia de que eu realmente era alguém especial. Insistia em apontar qualidades em mim
- Sou capaz de listar 50 coisas que você tem de especial.
- Duvido!
Ele aceitou o desafio, eu continuei incrédula.
Nossos intermináveis papos prosseguiam. Música, poesia, psicologia, família, passado, futuro. Ele já não falava da namorada legal, eu já não queria perguntar. Numa noite de sábado, o papo fluía como sempre, mas tomou um rumo inesperado. Ainda não sei como aconteceu, mas começamos a falar de nós de um jeito diferente. Como se nós fossemos 2, um casal...
segunda-feira, julho 02, 2001
Enquanto os dias passavam rapidamente, fazíamos com que algumas noites durassem um pouco mais, por telefone. Engraçado o modo como os assuntos apareciam sem nenhum esforço; sem aquela sensação de continuar sem ter o que falar. O meu alguém continuava "legal" e ela continuava perguntando mais do que eu gostaria de responder. Mas eu não respondia só por educação ou cortesia. Tinha prazer em passar o tempo que fosse com alguém que poderia ter sido tão mais do que realmente foi em minha vida. Seus comentários sarcásticos garantiam momentos de diversão inefáveis. Poucas pessoas tinham o poder de usar as palavras de forma tão eficiente sem tentar manipular essa habilidade.
Durante os dias, passei a gastar um pouco mais de tempo pensando no modo como nos reencontráramos. Um simples telefonema; um simples encontro, que por poucos minutos não deixou de acontecer; mais alguns telefonemas que pareciam insistir em relembrar o passado, ao mesmo tempo em que faziam questão de deixar claro que era uma coisa perfeitamente normal dois grandes amigos que tivessem ficado privados da companhia um do outro por longos cinco anos procurassem recuperar a intimidade perdida. Intimidade perdida? Grandes amigos? Nem uma coisa, nem outra. Quando nos conhecemos queimamos etapas. Não nos propusemos a deixar as coisas acontecerem, mas elas tomaram o rumo da situação à nossa revelia. Não nos tornamos amigos. Não precisamos de mais de dois encontros para perceber a afinidade que fazia uma redoma ao nosso redor. Passamos muito pouco tempo tão juntos quanto se deveria. Algo que, hoje, só me faz tentar imaginar o que teria acontecido se não nos tivéssemos separado. Bem; o fato é que não havia uma grande amizade a ser recuperada. aos poucos fomos verificando que tudo mudara, menos nós dois. Tivemos o mesmo prazer em estar juntos experimentado anteriormente; só não cabia apaixonarmo-nos de novo. E as conversas continuavam, comodamente, pelo telefone.
- Quando é que vou conhecer a sua namorada? Vamos marcar um dia para sairmos juntos! - Por que será que eu não queria isso?
- Qualquer dia a gente marca. Me fala do seu "cara meio confuso". Como vão as coisas?
- Hoje ele brigou comigo por telefone. Ele não acredita em mim. - Essas frases dogmáticas sempre provocam uma repercussão maior do que se pensa. E eu fiquei pensando naquilo. Ele tinha de ser muito confuso mesmo para não confiar nela. Na verdade, eu nunca pude dizer o que eu achava daquele relacionamento. Menos por medo de magoar uma nova velha amiga, do que pela certeza de que, se fosse minha namorada, ela não passaria por tais problemas. Foi este tipo de pensamento que me fez compreender o inconformismo dela com minha maneira de falar de minha relação amorosa...
Durante os dias, passei a gastar um pouco mais de tempo pensando no modo como nos reencontráramos. Um simples telefonema; um simples encontro, que por poucos minutos não deixou de acontecer; mais alguns telefonemas que pareciam insistir em relembrar o passado, ao mesmo tempo em que faziam questão de deixar claro que era uma coisa perfeitamente normal dois grandes amigos que tivessem ficado privados da companhia um do outro por longos cinco anos procurassem recuperar a intimidade perdida. Intimidade perdida? Grandes amigos? Nem uma coisa, nem outra. Quando nos conhecemos queimamos etapas. Não nos propusemos a deixar as coisas acontecerem, mas elas tomaram o rumo da situação à nossa revelia. Não nos tornamos amigos. Não precisamos de mais de dois encontros para perceber a afinidade que fazia uma redoma ao nosso redor. Passamos muito pouco tempo tão juntos quanto se deveria. Algo que, hoje, só me faz tentar imaginar o que teria acontecido se não nos tivéssemos separado. Bem; o fato é que não havia uma grande amizade a ser recuperada. aos poucos fomos verificando que tudo mudara, menos nós dois. Tivemos o mesmo prazer em estar juntos experimentado anteriormente; só não cabia apaixonarmo-nos de novo. E as conversas continuavam, comodamente, pelo telefone.
- Quando é que vou conhecer a sua namorada? Vamos marcar um dia para sairmos juntos! - Por que será que eu não queria isso?
- Qualquer dia a gente marca. Me fala do seu "cara meio confuso". Como vão as coisas?
- Hoje ele brigou comigo por telefone. Ele não acredita em mim. - Essas frases dogmáticas sempre provocam uma repercussão maior do que se pensa. E eu fiquei pensando naquilo. Ele tinha de ser muito confuso mesmo para não confiar nela. Na verdade, eu nunca pude dizer o que eu achava daquele relacionamento. Menos por medo de magoar uma nova velha amiga, do que pela certeza de que, se fosse minha namorada, ela não passaria por tais problemas. Foi este tipo de pensamento que me fez compreender o inconformismo dela com minha maneira de falar de minha relação amorosa...
Quando o reencontrei estava feliz. Bom saber que depois de tanto tempo, uma coisa que foi tão rápida, marcou tanto, a ponto dele querer tanto me rever. Escolhi a roupa com cuidado, afinal não era mais aquela garotinha chata, com ares de sabe tudo, que o perturbava na locadora. Quis parecer bonita, mais mulher. Afinal minha vida profissional finalmente dera importantes passos. As respostas para anos de dúvida vieram de um festival de rock. Tudo agora fazia mais sentido. Quis deixar claro que estava bem, embora não fosse essa a mais pura verdade, ainda estava tentando.
A solidão ainda me assombrava, me sentia mais fria que na época em que nos conhecemos. Foram tantas frustrações, tantas dores, que já não me achava mais capaz de sentir profundamente. Mesmo assim existia alguém. Mesmo sem a menor certeza me prontifiquei a afirmar:
- Estou apaixonada! O cara é meio confuso, mas vamos ficar bem. Meu eterno otimismo me dizia isso.
O mesmo festival de rock também me trouxe novos sentimentos, uma nova oportunidade, mesmo que contra a vontade, para tentar mais uma vez.
Mas aquela visita inesperada ainda me intrigava, o que ele fazia ali afinal? lembro bem o quanto é avesso as perguntas, mas arrisco assim mesmo:
- E você, como está?
- Estou bem. Também tenho alguém.
Isso eu já sabia, mas ainda não era suficiente. Queria saber mais, eu e minha fixação infantil por relacionamentos que dão certo não me deixavam parar.
- Ela é legal?
- É sim.
Visivelmente desconfortável, tentava fugir do meu interrogatório. Acabou por despertar ainda mais minha inesgotável curiosidade. "Que falta de entusiasmo. Como pode um bom relacionamento ser citado com tal indiferença?", pensei.
Parecia muito mais a vontade quando o assunto era o passado, nossas implicâncias infantis, os gostos musicais divergentes de maneira engraçada. Era estranho rever alguém nessas circunstancias, tão estranho e tão intimo. Depois de algum tempo dividindo o mesmo banquinho, pude vê-lo melhor. Tentei reconhecer os traços do passado, encontrar aquilo me despertou a atenção tempos atras. Por um instante tive a sensação de que ele fazia o mesmo. Não sei como começamos a revelar os segredos daquela época, mas fomos falando... Ele queria me namorar, gostou mesmo de mim, pode? E eu ali, doidinha para mais tempo, mais serio, mas sem saber como pedir. Fizemos a mesma opção, sem ao menos combinar, o silencio. A medida em que ele ia revelando suas intenções do passado, admirava seu rosto do presente, lembrei do que gostava: boca, sorriso, palavras. O jeito como se dirigia a mim, uma intimidade desmedida, não programada, muito menos combinada, mais que muito me agradava.
Em segredo lamentei pela escolha que fizemos lá atras. Combinamos agora uma amizade, nos moldes tradicionais. Selamos com um abraço terno, e ele se foi me deixando a alegria de ter alguém legal no meu caminho...
... (vc continua)
A solidão ainda me assombrava, me sentia mais fria que na época em que nos conhecemos. Foram tantas frustrações, tantas dores, que já não me achava mais capaz de sentir profundamente. Mesmo assim existia alguém. Mesmo sem a menor certeza me prontifiquei a afirmar:
- Estou apaixonada! O cara é meio confuso, mas vamos ficar bem. Meu eterno otimismo me dizia isso.
O mesmo festival de rock também me trouxe novos sentimentos, uma nova oportunidade, mesmo que contra a vontade, para tentar mais uma vez.
Mas aquela visita inesperada ainda me intrigava, o que ele fazia ali afinal? lembro bem o quanto é avesso as perguntas, mas arrisco assim mesmo:
- E você, como está?
- Estou bem. Também tenho alguém.
Isso eu já sabia, mas ainda não era suficiente. Queria saber mais, eu e minha fixação infantil por relacionamentos que dão certo não me deixavam parar.
- Ela é legal?
- É sim.
Visivelmente desconfortável, tentava fugir do meu interrogatório. Acabou por despertar ainda mais minha inesgotável curiosidade. "Que falta de entusiasmo. Como pode um bom relacionamento ser citado com tal indiferença?", pensei.
Parecia muito mais a vontade quando o assunto era o passado, nossas implicâncias infantis, os gostos musicais divergentes de maneira engraçada. Era estranho rever alguém nessas circunstancias, tão estranho e tão intimo. Depois de algum tempo dividindo o mesmo banquinho, pude vê-lo melhor. Tentei reconhecer os traços do passado, encontrar aquilo me despertou a atenção tempos atras. Por um instante tive a sensação de que ele fazia o mesmo. Não sei como começamos a revelar os segredos daquela época, mas fomos falando... Ele queria me namorar, gostou mesmo de mim, pode? E eu ali, doidinha para mais tempo, mais serio, mas sem saber como pedir. Fizemos a mesma opção, sem ao menos combinar, o silencio. A medida em que ele ia revelando suas intenções do passado, admirava seu rosto do presente, lembrei do que gostava: boca, sorriso, palavras. O jeito como se dirigia a mim, uma intimidade desmedida, não programada, muito menos combinada, mais que muito me agradava.
Em segredo lamentei pela escolha que fizemos lá atras. Combinamos agora uma amizade, nos moldes tradicionais. Selamos com um abraço terno, e ele se foi me deixando a alegria de ter alguém legal no meu caminho...
... (vc continua)
